A linguagem da vida e da escola.

POR Geovania Jesus 13/10/2011

É correto valorizar apenas a norma padrão, discriminando a diversidade linguística? O presente texto convida os educadores a uma reflexão...

RESENHA CRÍTICA

Geovania Souza de Jesus Oliveira[1] 

 

A LINGUAGEM DA VIDA, A LINGUAGEM DA ESCOLA: INCLUSÃO OU EXCLUSÃO? 

(UMA BREVE REFLEXÃO LINGÜÍSTICA PARA NÃO LINGUISTAS)

 

Referência bibliográfica: 

MOTA, Kátia Maria Santos Cristina. A linguagem da vida, a linguagem da escola: inclusão ou exclusão? Uma breve reflexão lingüística para não lingüistas In________ Revista da FAEEBA – Educação e Contemporaneidade, Salvador, v. 11, n. 17, p. 13-26, jan./jun., 2002

Credenciais do (a) autor (a):

Licenciada em Letras, pela UFBA; mestre em Letras (concentração Lingüística), pela UFBA; doutora em Estudos Luso-Brasileiros (concentração Educação Intercultural), pela Brown University, EUA; professora aposentada da Faculdade de Educação, UFBA. Atualmente professora visitante da Pós-graduação Educação e Contemporaneidade, UNEB.

 

GoogleA autora Kátia Maria Santos Mota inicia o referido texto com uma estória que a inquietou por vários anos. Trata-se de “Jorge”, personagem que ela mesma presenciou uma cena na década de 80, quando começou a trabalhar com capacitação de alfabetizadores na rede municipal de Salvador, cena esta, que nunca saiu de sua mente.  A mesma aconteceu numa sala de aula em um bairro periférico da cidade, onde uma professora, muito entusiasmada, desenvolvendo uma atividade de “ampliação de vocabulário” – mostrava gravuras de objetos diversos e solicitava que as crianças nomeassem cada objeto articulando “corretamente” cada palavra. Ao mostrar a gravura de um balde, o “Jorge” citado acima, levanta a mão e diz: “bardi”; a professora, prontamente, corrigiu a fala do menino, dizendo “bardi, não, o certo é balde”. “Jorge ficou calado diante dela, mas virando-se para o coleguinha ao lado, diz:

“Esta professora é maluca. Minha avó, que é minha avó, diz bardi. Agora ela quer que eu mude.”

Essa situação vivida por “Jorge” trouxe alguns questionamentos para a autora, tais como: O que aconteceu com a linguagem de Jorge? Será que ele conseguiu, finalmente, falar balde, passando a negar a autoridade da sua avó e a acreditar que ela era uma ignorante que não sabia falar certo? Ou será que ele silenciou ao mundo da escola, percebendo que jamais seria capaz de falar a língua da professora? Atualmente a mesma repensa tal situação trabalhando com um grupo de professores de Português que se queixam da “fala errada”, da escrita horrível dos vários “Jorges” e se declaram frustrados porque nada conseguem fazer para “melhorar o português” desses alunos.

Kátia Maria foi muito sábia em sua fala inicial, pois nós faz como leitor e/ou profissionais da área de educação refletir sobre a questão ensino aprendizagem no que se refere a oralidade. Será que existe o falar certo ou errado segundo a minha visão? Ou o que realmente existe são “linguagens” da vida que deve ser pensada, respeitada, valorizada e trabalhada até que no tempo certo alcance as normas estabelecidas pela escola/sociedade?

Segundo a autora, apesar de muitos textos linguísticos terem sido estudados e muitos autores, discutidos, o professor ainda não internalizou a mudança de crenças ou, se já o fez, não consegue articular a ponte entre a teoria e a prática. Então, propõe ao educador compreender a diversidade linguística como fenômeno natural da comunicação e investigar/construir propostas pedagógicas que favoreçam a coexistência entre essas várias expressões linguísticas nas atividades curriculares do ensino de Língua Portuguesa.

Segundo a autora lamentavelmente nos cenários escolares por onde ela passa, quase tudo, embora pareça tudo muito claro em se tratando muitos princípios pedagógicos, parece-lhe ainda imaginação dos educadores, coisas difíceis de se colocar na prática. É por aí, segundo ela, que não me cansa de repetir a lição, principalmente quando descobre que, em cada repetição, há um novo questionamento, um novo entendimento, uma nova possibilidade de se transformar as atividades de linguagem em algo mais vivo, mais fascinante, mais poderoso. No decorrer de seu percurso Kátia Maria se se direciona, sobretudo, aos educadores que não são da área de Letras e que, por conseguinte, desconhecem alguns princípios linguísticos básicos que sustentam a prática pedagógica subjacente ao desenvolvimento da capacidade comunicativa do aluno e pretende, no presente texto que a mesma vem  colecionando com na sua trajetória como educadora.

A autora Kátia Maria enriquece seu texto relembrando as primeiras lições do grande mestre Paulo Freire ao criar os círculos de cultura popular como instrumento pedagógico do despertar da consciência crítica. Informações que todos os profissonais de educação precisam saber.

O início da jornada pedagógica se concretiza ao mergulharmos no universo cultural do aluno, acolhendo sua linguagem, suas formas de expressão. As trilhas do caminho vão se iluminando a partir do momento em que professores e alunos, criando seus próprios discursos, imprimem nos seus textos a singularidade de cada história de vida.

É preciso que o(a) educador(a) saiba que o seu “aqui” e o seu “agora” são quase sempre o “lá” do educando. Mesmo que o sonho do(a) educador(a) seja não somente tornar o seu “aqui-agora”, o seu saber, acessível ao educando, mas ir mais além do seu “aqui-agora” com ele ou compreender, feliz, que o educando ultrapasse o seu “aqui”, para que este sonho se realize tem que partir do “aqui” do educando e não do seu. No mínimo, tem de levar em consideração a existência do “aqui” do educando e respeitá-lo. No fundo, ninguém chega , partindo de , mas de um certo aqui. Isto significa, em última análise, que não é possível ao(a) educador(a) desconhecer, subestimar ou negar os “saberes de experiência feitos” com que os educandos chegam à escola. (FREIRE, 1992, p.59)

Em suma, a obra fornece subsídios à prática pedagógica de estudantes ou já então profissionais da educação, à medida que trata de um assunto importante de maneira que leva o público a se envolver emocionalmente no enredo apresentado. Assunto esse, que merece ser (re) pensado para que na equívocos como o que aconteceu com o “Jorge” não se repita com os “Jorges” das carteiras escolares espalhados nas muitas unidades escolares.

Trata-se uma obra que exige algumas releituras e pesquisas quanto a conceitos utilizados, pois a autora possui uma vasta experiência e expõe o tema de forma rica despertando a curiosidade do (a) leitor (a).

            Finalmente, com o estudo dessa obra, podemos amadurecer mais como (futuros) ou atuantes profissionais da educação, inclusive para aceitar e até solicitar críticas que em muito pode enriquecer nossos atuais ou futuros trabalhos.



[1]  Coordenadora pedagógica da Escola Adventista de Santo Antônio de Jesus.