A importância da afetividade

POR Geovania Jesus 13/10/2011

O presente artigo, apresenta uma análise das contribuições da afetividade no processo de ensino e aprendizagem.

                              

                               A IMPORTÂNCIA DA AFETIVIDADE NO PROCESSO DE ENSINO E APRENDIZAGEM 

                                                                                                                           Geovania Souza de Jesus Oliveira[1]

 

Google RESUMO

 

 O presente artigo apresenta uma análise das contribuições da afetividade no processo de ensino e aprendizagem, avaliando a importância dessa relação no processo educacional e estabelecendo reflexões sobre essas contribuições para o desenvolvimento integral do educando.

 

Palavras-chave: afetividade, ensino, aprendizagem, educação, emoções.

 

ABSTRACT

THE IMPORTANCE OF AFFECTIVITY IN THE TEACHING-LEARNING

            This article presents an analysis of the contributions of affectivity in the teaching-learning process, evaluating the importance of this relationship in the educational setting and reflections on these contributions to the development of the student.

Keywords: affection, teaching, learning, education, emotions.

 

1. AFETIVIDADE E O DESENVOLVIMENTO COGNITIVO

            A afetividade é um componente de grande relevância no convívio humano. Todavia, é importante valorizá-la em todos os estágios da criança, uma vez que, a não existência de um equilíbrio afetivo pode desencadear no sujeito dificuldades de aprendizagem, gerando assim, sentimentos desordenados que segundo Piaget tende a levar ao fracasso escolar e as relações interpessoais.

Diante disto, é importante avaliar em que medida a afetividade constitui-se de fato em condição interveniente e motivadora para a apropriação de saberes por parte do educando durante o processo de ensino e aprendizagem. Sendo assim, com o objetivo de clarear o intento planejado, os pressupostos teóricos aqui apresentados constituem o resultado de uma ampla pesquisa bibliográfica, sustentada por experiências e vivências advindas de um estudo de caso através da pesquisa qualitativa, entre professores e alunos de uma Escola Municipal[2], localizada no município de Santo Antônio de Jesus. Para tanto, foi utilizada duas técnicas de pesquisa: a observação e a entrevista. A observação por ser de grande importância no papel da pesquisa, pois consiste em uma participação real do pesquisador com o grupo em questão técnica, não consistindo em apenas ver e ouvir, mas também em analisar fatos ou fenômenos que se deseja estudar. E a entrevista que foi escolhida por se apresentar como um método viável à obtenção de informações através da fala dos entrevistados, pois a mesma permite compreender a concepção de homem e de mundo que o entrevistado traz consigo[3].

Muitos dos estudos feitos sobre aprendizagem ignoraram as questões afetivas nos processos cognitivos do indivíduo ou trataram a afetividade como fazendo parte da socialização deste (Sisto e Martinelli, 2006). Outros defendem a influência da afetividade, como afirma a seguinte citação:

 “A ação, seja ela qual for, necessita de instrumentos fornecidos pela inteligência para alcançar um objetivo, uma meta, mas é necessário o desejo, ou seja, algo que mobiliza o sujeito em direção a este objetivo e isso corresponde à afetividade” (Dell’Agli e Brenelli, 2006, p.32).

 

           Na obra Walloniana, a afetividade e a inteligência constituem uma dupla inseparável no desenvolvimento psíquico, pois elas têm funções definidas e, quando unidas, permitem a criança evoluir alcançando para níveis cada vez mais elevados. Almeida (1999, p.52) afirma :

“A afetividade constitui um domínio tão grande quanto à inteligência para o desenvolvimento humano. Ela não é só sentimento, nem paixão, muito menos emoção. É um termo mais amplo que inclui estes três últimos, que por sua vez são distintos entre si”.

            Com formas de expressões diferentes, mas correlacionadas, podem ser confundidos, entretanto, a afetividade é mais abrangente e integra relações afetivas, ou seja, as emoções, a paixão e o sentimento. Segundo Almeida (1999, p.50):

A afetividade, assim como a inteligência, não aparece pronta nem permanece imutável. Ambas evoluem ao longo do desenvolvimento: são construídas e se modificam de um período a outro, pois, à medida que o indivíduo se desenvolve, as necessidades afetivas se tornam cognitivas.

       Partindo do pressuposto que a afetividade contribui no desenvolvimento humano, entende-se que a mesma pode mover o crescimento psíquico e intelectual mostrando-se um fator importante para a aprendizagem. Toda via, o professor tem que ser equilibrado emocionalmente na sala de aula e ter conhecimento sobre a importância da mesma para o desenvolvimento integral de seus alunos[4], deve levar em consideração os estados emocionais no contexto de sala de aula, pois a falta desse equilíbrio pode desencadear nos alunos sentimentos desordenados e consequentimente ao fracasso escolar.

 

2.  ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A AFETIVIDADE

 

A afetividade tem sido bastante discutida por professores, pais e pedagogos em que é percebida a sua importância no processo de ensino-aprendizagem. Mas o que é afetividade?[5]

Segundo Ferreira (1999, p. 62), afetividade significa um conjunto de fenômenos psíquicos que se manifestam sob a forma de emoções, sentimentos e paixões, acompanhados sempre da impressão de dor ou prazer, de satisfação ou insatisfação, de agrado ou desagrado, de alegria ou tristeza.

       Em um mundo rodeado de novas informações, tecnologias, contatos, amizade, relações virtuais, nota-se que a afetividade tem se colocado em evidência, principalmente em se tratando das relações criadas no processo educativo. Em educação entende-se por afetividade as relações emocionais e sociais criadas no âmbito da unidade escolar, desde as demonstrações de amizade, às demonstrações recíprocas de sentimentos que visam o desenvolvimento dos agentes educacionais.

       Pesquisadores e discípulos da psicogenética afirmam que tudo o que se constrói em termos de afetividade acompanha o ser humano em todo o seu processo de vida, sendo, portanto, a sua fonte de energia, como afirma Rossini:

Se o ser humano não está bem afetivamente, sua ação como ser social estará comprometido, sem expressão, sem força, sem vitalidade. Isto vale para qualquer área da atividade humana, independente de idade, sexo, cultura. (2002, p. 16).

            ROSSINI (2004) ainda afirma que: “o ser humano pensa, sente, age. Ele pode ter um quociente intelectual (QI) altíssimo, porém se o seu sentir estiver comprometido ou bloqueado a sua ação não será energizante, forte, eficaz, produtiva”. (p. 15)

            DANTAS afirma que “na psicogenética de Henri Wallon, a dimensão afetiva ocupa lugar central, tanto do ponto de vista da construção da pessoa quanto do conhecimento”. (1992, p. 85).

Conforme Rousseau (1990) a posição do adulto em relação à criança deve ser de entendimento e não de permitir que ela faça algo por constrangimento exterior e artificial. Deve ser dado outro sentido a educação natural, não reduzir o homem dimensão intelectual, como se a natureza fosse apenas razão e reflexão. Antes da idade da razão existe uma razão sensitiva. É preciso, portanto não abafar os sentidos, as emoções, os instintos e os sentimentos que são anteriores ao próprio pensamento elaborado.

            Podemos dizer então que as relações afetivas são importantes no âmbito escolar, pois as práticas educacionais desenvolvidas através de bases afetivas apresentam grandes possibilidades de se produzir reações favoráveis para alcançar o êxito no processo de ensino-aprendizagem.

Para Wallon apud Dantas (1992), o desenvolvimento intelectual envolve muito mais que um simples cérebro. Ele foi o primeiro a levar não só o corpo da criança, mas também suas emoções para dentro da sala de aula. Sobre as emoções Dantas (1992), discípula de Wallon afirma:

“A emoção é altamente orgânica, altera a respiração, os batimentos cardíacos e até o tônus muscular, tem momentos de tensão e distensão que ajudam o ser humano a se conhecer”.

Sendo assim, é preciso, portanto embasar-se teoricamente para entender que a afetividade não é apenas um algo a mais, mas, sobretudo um dos fatores importantes que influenciam no desenvolvimento cognitivo do indivíduo. Ela tem um papel imprescindível no processo de desenvolvimento da personalidade da criança, que se manifesta primeiramente no comportamento e em seguida na expressão. Almeida (1999, p. 42) ao mencionar Wallon diz que ele atribui à emoção como os sentimentos e desejos, são manifestações da vida afetiva, um papel fundamental no processo de desenvolvimento humano. Entende-se por emoção as formas corporais de expressar o estado de espírito da pessoa, este estado afetivo pode ser penoso ou agradável.                                                                                                                                  

3. Afetividade e inteligência

Para Wallon apud Dantas (1992), o desenvolvimento intelectual envolve muito mais que um simples cérebro. Ele foi o primeiro a levar não só o corpo da criança, mas também suas emoções para dentro da sala de aula. Sobre as emoções Dantas (1992), discípula de Wallon afirma:

“A emoção é altamente orgânica, altera a respiração, os batimentos cardíacos e até o tônus muscular, tem momentos de tensão e distensão que ajudam o ser humano a se conhecer”.

            Sendo assim, torna-se relevante a necessidade de considerar o papel da sensibilidade nas relações que envolvem aprendizagem. A teoria proposta por Henry Wallon procura romper a dicotomia entre o orgânico e o social, entre o indivíduo e o meio. Percebe-se então, a relação intrínseca que Wallon estabelece entre as funções psíquicas da criança com sua infra-estrutura orgânica.

            As perspectivas Wallonianas contemplam a uníssona relação entre a inteligência, o conhecimento e a percepção, sendo que tais processos são inseparáveis do mundo da afetividade, da paixão, da curiosidade, tornando-se estes verdadeiras fontes para redimensionar a educação, tornando-a mais significativa para a criança.

            Portanto a afetividade sadia contribui para melhorar as condições de aprendizagem das crianças. A escola puramente racionalista, que desvincula a criança de seus sentimentos, que não considera o seu contexto histórico, não encontra espaço para se desenvolver dentro dos postulados teóricos de Wallon. Uma escola que se encaixe dentro das perspectivas de Wallon deve assumir uma postura que atenda as necessidades afetivas da criança, que integre razão e emoção numa lógica que saiba perceber e valorizar as pulsões vitais da criança no processo de ensino-aprendizagem.

            Não se pode considerar apenas a razão dentro escola sem levar em consideração os sentimento. A idéia de um homem dividido entre razão e emoção, deve-se principalmente ao francês René Descartes, com sua teoria monista. Ele comparava o homem a uma máquina, um sujeito desprovido de sentimentos e emoções. Isso fica claro nas idéias defendidas por ele na sua obra “Tratado do homem”:

Imaginaremos homens em tudo a nós semelhantes, mas consideraremos, inicialmente, neles apenas uma máquina sem alma, sendo esta, como se sabe, realmente distinta do corpo. Os espíritos animais nada mais são do que as partes mais tênues do sangue que passam do coração ao cérebro, e a seguir do cérebro aos músculos, que eles movem a maneira de nossos comandos hidráulicos. O próprio sangue provém de uma filtragem das partes dos alimentos que o calor do coração irá desligar. (DESCARTES, 1979, p. 15) 

            Essa visão de René descartes foi ultrapassada por vários pesadores ao longo da história humana. Cabe a Escola, na pessoa do professor (a) repensar alguns valores dentro de sua prática pedagógica, pois a afetividade vem dar um no significado e preencher as lacunas de uma educação que, por vezes, tem se mostrado insuficiente para a formação integral do indivíduo.

            A respeito da relação entre cognição e afetividade Galvão afirma:

"Apesar de alternarem a dominância, afetividade e cognição não se mantém como funções exteriores uma à outra. Cada uma, ao reaparecer como atividade predominante num dado estágio, incorpora as conquistas realizadas pela outra, no estágio anterior, construindo-se reciprocamente, num permanente processo de integração e diferenciação“. (Galvão, 1996, p. 45).

 

            Portanto, a Escola que pretender incorporar as idéias desenvolvidas nos postulados teóricos de Wallon, e outros teóricos que defendem a importância da afetividade deve adotar como o ponto de partida a reflexão acerca das emoções como uma função organizadora do sujeito.

A AFETIVIDADE E O PESQUISADOR

Diante da importância assumida em relação à afetividade na ação pedagógica, é preciso que a Escola ressuscite, ou melhor, se aproprie da arte de viver um pensamento amoroso da vida em sua integridade. A Escola precisa “criar” e não apenas reproduzir. Rubem Carlos Alves (1991) finaliza o texto com a seriedade de suas idéias acerca do dualismo entre a criação e a reprodução. O autor conclui que “Há um tipo de inteligência criadora. Ela inventa o novo e introduz no mundo algo que não existia. Quem inventa não pode ter medo de errar, pois vai se meter em terras desconhecidas, ainda não mapeadas”.

É importante salientar que para não haver generalização, pode-se afirmar que a afetividade é de suma importância no processo de ensino-aprendizagem, pois a mesma auxilia a aprendizagem e contribui para o desenvolvimento integral de alguns indivíduos, mas devido à complexidade humana, enquanto existem estudantes que só aprendem ao criar laços afetivos, outros não apresentam relações afetivas, mas conseguem desenvolver-se no processo educacional.

 

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 ALMEIDA, Ana Rita Silva. A emoção na sala de aula. Campinas, SP: Papirus, 1999. 112 p.

 

DANTAS, Heloysa. A afetividade e a Construção do Sujeito na Psicogenética de Wallon. In: LA TAILLE, Yves de; OLIVEIRA, Marta Kohl de; DANTAS, Heloysa. Piaget, Vygotsky, Walon: teorias psicogenéticas em discussão. São Paulo: Summus, 1992.

 

DESCARTES, René. Os pensadores. Tard. Gunsberg e Prado Jr. São Paulo: Abril Cultural, 1979.

DELL’AGLI, B.; BRENELLI, R. A afetividade no jogo de regras.

Martinelli, S. Afetividade e Dificuldades de Aprendizagem: uma abordagem psicopedagógica. 1.ed. São Paulo: Vetor, 2006. p.32.

 

FERREIRA, A. B. H. Novo Aurélio XXI: o dicionário da Língua Portuguesa. 3 ed. Totalmente revista e ampliada. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.

 

MARCONI, M.; PRESOTTO, Z. M. Antropologia: uma introdução. São Paulo: Atlas, 1987.

 

MINAYO, M. C. de S. (Org.) Pesquisa social: teoria, método e criatividade. 22. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2003.

ROSSINI, Maria Augusta S. Pedagogia afetiva. 6 ed. Petrópolis- RJ: Vozes, 2004.

 

ROSSINI, Maria Augusta Sanches. Pedagogia afetiva. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2002.


[1] Coordenadora Pedagógica da Escola Adventista de Santo Antônio de Jesus.

 

[2] Por uma questão ética, o nome da unidade escolar não foi divulgado.

[3] Embora a entrevista constitua-se em um método viável à obtenção de informações através da fala dos entrevistados, algumas professoras que responderam a entrevista que embasou o presente artigo não se mostraram interessadas na mesma e omitiram informações importantes sobre o que foi proposto. 

[4] Na prática muitas vezes esse conhecimento é inexistente, isso pôde ser contatado quando em uma das perguntas feita para uma professora da instituição escola pesquisada, ela afirmou que desconhecia Herri Wallon, teórico que tem a afetividade com tema central de suas obras

[5]  Das professoras entrevistadas, todas afirmaram que a afetividade era  relação de carinho e amor.